Ainda "Não se pode"

 

Pela cidade, fazia arte urbana transgressora, saindo algumas noites para colar lambe-lambe, stickers, a fazer pichações. Sozinha, escondido, tremendo de medo e vibrando de coragem. Entre os contatos artísticos desta jovem havia uma diretora da Casa de Cultura de Teresina, que a convidou para realizar curadoria de uma exposição coletiva na quente capital piauiense. Sem pensar muito, a resposta foi sim.

 

Mal sabia ela que se encontraria em versão lendária naquela cidade. Arrumou o necessário. Mesmo com o mínimo de dinheiro para tal viagem, partiu de ônibus em direção ao desconhecido. Alessandra, fascinada por tudo, estava em sua primeira aventura profissional, e depois de trinta e oito horas em uma passageira espera, chegou ao destino. Conheceu pessoas, apreciou gravuras de vários artistas, respondeu inúmeras perguntas em várias entrevistas até que pôde passear um pouco pela cidade. Um senhor simpático sentado em um banco da praça a chamou e para conversar por ter percebido que era de outra região e foi logo perguntando: Você conhece a “Não se pode”?

 

– Não, o que é isso? Respondeu a alta artista mineira.

 

– Você me lembra ela. Senta aqui que vou te contar. Continuou o senhor na praça. A “Não se pode” era uma linda mulher, alta como você, que saia pela cidade de madrugada, em uma época que mulheres não saiam de casa sem um homem. Quando ela via um homem na rua pedia um cigarro e se alongava para acender no fogo da lamparina, mas se o homem conversasse com ela, “Não se pode” saía correndo e gritando: Não se pode, não se pode.  

 

Depois deste relato, Alessandra ouviu mais umas dez pessoas contarem sobre a lenda, e cada vez que ouvia, despertava novas questões aos oradores. Porém, por se encontrar naquela personagem, por praticar passeios noturnos secretos, a artista voltou para casa invadida pelo espírito daquela mulher que marcou presença em um momento de extrema repressão machista.

 

 

 

 

M18M: Por quais mares já navegou? 

 

Ropre: Tenho medo de água, então navego por imaginação sobre solo firme, mas já voei por todo o país levando minha arte onde o povo está. Como diz a música.

 

 

  

 

 

 

 

 

 

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