Pela janela

 

Ela é engraçada. Está sentada na cama de novo, de costas para tudo, olhando pela janela. O andar não é muito alto, mas a vista dá para o viaduto onde passam os carros e onde moram as pessoas que não tem casa. E também há aquela torre que fica mudando de cor. O que será que ela vê lá fora? Ela já comentou sobre o reflexo das cores no céu cinzento e sobre como, sem óculos, não enxerga as pessoas ali embaixo. Mas ela fica tanto tempo olhando. Não sei o que a interessa. É o que está lá fora? Ela olha bem longe, em silêncio. Ela pode ficar horas em silêncio se eu a deixar ali, imóvel. Se eu não entrar no quarto e fazê-la se voltar para mim. Pergunto sobre seus pensamentos. Ela nem sempre responde. Ela se esquiva e quer ir embora, mas eu a faço ficar muito facilmente.

 

Eu lhe pergunto se ela está mesmo feliz aqui hoje. Ela diz que sim. Ela parece sem rumo ao mesmo tempo em que parece muito decidida e demonstra certa teimosia. Eu elogio sua pele e confesso como me atrai sua delicadeza. Ela parece agradecida, mas não muito feliz. Quando lhe falo sobre como esteve mal-humorada de manhã ela se defende e parece querer me matar. Chora muito e quer ir embora. Pega suas roupas no chão. Eu a abraço e ela fica.

 

Ela espera a noite chegar. Ela diz que não se arrepende de ter vindo, mas que já passou da hora de ir embora. Eu peço para que passe a noite comigo. Ela quer, mas não vai ficar. Eu digo que ela tem medo. Digo isto muitas vezes. Vez ou outra, ela ri, vez ou outra ela discorda. Não sei bem porque ficamos juntos. Ela diz que acha linda a minha boca. Eu a levo até a porta e a abraço. Em frente ao elevador, ela espera olhando para mim. Aquele olhar atravessando a janela e as luzes da cidade. Não sei se é para mim ou para o quadro na parede atrás de mim ou para a lembrança do quarto ou para o que quer que seja que observava, sentada na cama, de costas para tudo.

 

Ela não parece muito feliz.

 

 

 

 

 

 

 

 

M18M: Por quais mares já navegou?

 

Luci Savassa: Já naveguei por mares profundos, às vezes límpidos e outras vezes de água misturada ao barro. Já naveguei por mares revoltos, turvos, ácidos e até traiçoeiros, mas também já me vi nadando calmamente em mares de águas transparentes e tranquilas, em raros, mas potentes momentos de harmonia total. Sonho constantemente com o mar e sinto que nasci dentro dele em vidas passadas. Mesmo o tendo visto pela primeira vez , nesta vida, aos 19 anos de idade, tenho plena certeza de que ainda navegarei muitos mares em diversas partes do planeta, as mais longínquas possíveis.

 

 

 

 

 

  

 

 

 

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