Pequenas lições de desenho

 

Quando eu era criança meus pais iam trabalhar e eu ficava na casa dela. Tinha medo no começo porque ela chegou do nada na rua da minha infância, com uma roupa muito asseada e um coque no cabelo. A pele preta, a casa nova enfeitada de crochê porque tinha acabado de casar. O chão de terra do quintal subia pelos joelhos, latinhas prateadas empilhadas eram as bonecas, formigas e vidros quebrados no piche. O fora só imensidão, mas eu gostava quando o telefone tocava e ela atendia. Ficava falando com a pessoa invisível do outro lado, rabiscando no bloquinho de notas com caneta bic.

 

Desenhava gaivotas de risquinhos. O Mar. E uma árvore estranha com escamas no tronco, folhas-peixe e bolotas de saudade penduradas. "Que árvore é essa?"

 

"Chama-se coqueiro".

 

Ficava olhando essa mulher enigma. Os rabiscos que fazia me davam notícia de um mundo de longe que eu só imaginava, vapor de cores na sola do pé.

 

Coqueiro.

 

Desenho forasteiro de mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

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