cinco ave-marias

 

Carregando dor, lembranças e angústias, dia a dia.

 

Um dia, quis fazer diferente:

mudou de caminho, de penteado e de motivo.

 

Passou por uma igreja, por outra e por mais uma… quando já não aguentava mais, decidiu entrar. Não era católica, mas tinha lá suas crenças. Sentou ao lado do confessionário e com um vazio no colo e no peito, disse:

 

− Seu padre, dizem que sou louca.

 

− Ora, mas louca por que minha filha?

 

−  Não sei padre. E olha, sabe que não sou tão feia? Eu ainda sei fazer carinho, cartas e doce de abóbora! Só queria que soubessem que além de louca, tenho esperança e uma coisa aqui dentro, que parece que cresce mais cada dia que passa. Acho que é amor. Mas não esse que a gente vê por aí, nas ruas, nas propagandas… mas pode ser aquele, que a gente vê num banco de uma praça. Sabe, seu padre, eu espero demais por um dia. Mas, desse dia eu não conto pra ninguém, tudo bem eu não contar pro senhor? Quando tô triste, começo a pensar no que eu errei. Posso ficar triste o dia todo, a semana toda, e ver a alegria de vez em quando, mas são dessas poucas vezes que eu lembro. E não ponho culpa em ninguém, a não ser em mim mesma. E deve ser por isso que me chamam tanto de louca: eu quero muito de tudo, e também muito do pouco. Eu sofro com esse meu egoísmo amoroso. Quero colocá-lo num mundo e que esse mundo seja o meu. Ah, por que é que eu não me ajeito? Por que é que não me contento? E sabe, ando sem fome… e quando dizem que cara feia é fome eu insisto que não!… mesmo sabendo que tudo pode dar errado, eu insisto, sei que vai dar certo… muitos ou todos podem dizer que não, mas como eu já disse, eu conheci a esperança. Não quero mais meus planos de volta, meus sonhos e meu carinho. Tudo está ali, num único lugar, e vou deixá-lo por aí…e junto, meu coração. Não quero de volta, quero que fique ali, até o tempo dizer chega e o vento soprar. Não quero mais carregar esse peso, e levar de um lado pro outro. O que eu queria na verdade, era ir pra bem longe, que esqueçam que essa louca um dia esteve aqui, ou apenas, a ponta da barba dele encostando na minha boca, e o mais puro beijo nessa tarde fria. Você ainda está me escutando?

 

− Claro!

 

− Ah, quer saber padre? O que eu mais quero agora é comer açúcar, num banco de uma praça, mesmo sem esse amor.

 

Foi, e foi rezando cinco ave-marias na espera de um milagre. Depois desse dia, foi só mais um pra dizer que ela era louca.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

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