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Queríamos interromper a velocidade e o imediatismo do mundo. Sabotar tempos, (re)criar cenas. (In)ventar (amar)rações nas intermitências cotidianas. Num giro contínuo e permanente, nem rápido nem devagar, sem freios nem rumo: Pedalo! Ziguezagueando eu e minha bici experimentamos o clima, deixando rastros da nossa (in)sanidade, (rei)ventando outros modos de (vi)ver a cidade. Bicicleta, substantivo feminino, é meu verbo. Com ela perder tempo é uma escolha. Perder-se no tempo é uma consequência avassaladora. Abraço e ocupo a cidade com a energia e o calor do meu corpo. “Lugar de mulher é onde ela quiser”. Meu corpo, minha morada, campo de batalha, um terreno inegavelmente meu, de existência e experiência. Com o prazer transitando por entre minhas pernas, recolho pedaços de mim nas (in)significantes pedaladas cotidianas. Nesta troca a urbe me apalpa, me toca e eu a massageio com o meu pedalar. O chão torna-se apoio que sustenta nossas criações, suporta nossas escrituras, intempéries e rasuras. Nos acolhe em meio a tropeços. A poça d'água me encara, comovente a forma como ela me cativa e me ampara. As fissuras e remendos no pavimento cochicham, redesenhando contornos e urbanidades raras. Mapas repletos de afetividades e desejos vão sendo tecidos em meio a instabilidades e lampejos. Diálogos. A cidade tem pressa em se mover e esquecer. Algo incompatível com o corpo humano. Tem fome e sede insaciável de entorpecer. É também um corpo, composta de várias partes que se nutrem e se sustentam. O muro em branco nos interpela. O higienismo padronizado desperta desconfortos. O pixo dialoga e de repente saltam cores no cinza. De tempos em tempos a vi(d)a é toda minha, regando a sensação inebriante de emancipação e autonomia. Agindo na urbe, conferindo novas funções, alteramos seu conteúdo e sua forma, seu movimento e fluxo, temos tempo para nossas errâncias. Somos mulheres, pedalantes e da rua.

 

 

 

 

 

 

M18M: Por quais mares já navegou?

 

Mulher Pedalante: Navego em rios e mares diversos. Tenho costurado minha história nas águas doces e salgadas, bem como em portos por onde ancoro. Um deles foi na Graduação em Psicologia, onde pude perceber a imensidão que existe no horizonte. Em terra firme encontrei a potência em outros modos de navegar. Remendando tecidos e retalhos, e também de bicicleta flutuo, surfo, velejo pelas mais diversas urbanidades e texturas. Atracada me aventuro em estudos na área de Educação, sendo mestre e doutoranda, mas acima de tudo colecionadora de trajetos e afetos. Sedenta por aprender, faminta por descobrir quantas versões de mim conseguirei reinventar. Neste cenário mareante perder-me e arriscar-me tem sido desafios constantes. Inclusive atrever-se a escritas errantes.

 

 

 

  

 

 

 

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