A estrangeira

 

Nasceu, assim do nada, dum soluço uma cabeçada no assento velho do trem. Sua mãe carregava a barriga, a bolsinha laranja atravessada, a dúvida quanto ao nome e um daqueles livros de bancas de jornal com a solução. Era daquelas pessoas que usam o tempo da viagem para ler, lia como se no trem encontrasse silêncio, mas acho que era no tempo que o encontrava. No prelúdio entre o soluço e a cabeçada, lia Bárbara: a estrangeira.

 

Quando Bárbara viu o mundo pela primeira vez já era Bárbara, sua mãe achou que não havia nome mais apropriado para uma menina que nasce num trem do que Bárbara. Carregava do nome ao âmago o desalento do estrangeiro e cresceu com uma única certeza, a de que não tinha certeza de nada. Não tinha raiz, cultura ou amores, só cultivava uma culpa calada por querer ser Regina, aquela dos cinemas, que tinha em sobrados certezas de amores. Foi cobiçando Regina que Bárbara viciou-se em oráculos. Não dava um passo sem antes consultar o tarô, a borra do café, o horóscopo, a Mega-Sena, a meteorologia. Então ouviu dizer que numa rua da Vila Madalena tocava um tal de Rato, um cara baixinho que entre o saxofone e o farol vermelho regava um jardim de oráculos.

 

À procura de Rato por entre corretores que vendiam limitados requintados construídos sobre abismos de história, percebeu no caminhar apressado que para os ricos fora reservado o verde e para os pobres os postes, e disso ela tinha certeza. Otimista, pensou que ter certeza de algo já era um sinal e seguiu seu caminho sem se irritar tanto com o determinismo de seu nome ou as desfeitas das faixas de pedestres. Encontrou Rato tocando saxofone para uma plateia de rinocerontes barulhentos preparados para atropelar qualquer sinal de vida que aparecesse ao despertar verde do farol. Rato logo viu que Bárbara não tinha raiz e não sabia onde plantava, então de seu jardim de oráculos retirou uma muda de brancas margaridas e entregou-as para Bárbara, dizendo que cuidasse e observasse as pequenas flores e elas curariam suas incertezas.

 

Num cantinho embaixo da janela, onde batia sol, mas nem tanto, plantou seu oráculo, regando e observando passavam-se os dias e Bárbara acompanhou a morte lenta e amarelada de suas margaridas, não importou o quanto regara, cuidara ou acarinhara, suas margaridas secaram. Elas, assim como Bárbara, podiam ouvir lá da rua o ronco rancoroso dos rinocerontes. Elas, assim como Bárbara, não queriam guerrear com a má educação das jiboias que engoliam jiboias e inocentes sem colher e sem assopro. Então, sem cobertas de razão e coberta em dúvidas, Bárbara descobriu que seu vazio não era maldição de nome, mas de cidade. Deu um beijo em sua mãe, agradeceu Rato, despediu-se de Regina, embrulhou sua ferida e partiu.

 

 

 

 

 

M_18M: Por quais mares já navegou?

 

Jana Rodrigues: Só sei que foram 28

Desses, 27, atravessei à nado asmático 

Pro vigésimo oitavo, de pulmão já acinzentado,

Ganhei um barco

E não sei onde fui parar.

 

 

 

  

 

 

 

 

 

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