segunda-feira, 23 de maio

 

Eram sete da manhã de segunda-feira e no banco de trás do taxi Karina estava prestes a chorar.

 

Do alto do viaduto, o caos em sinfonia. O ronco dos motores se misturava com as estridentes buzinas e se confundia com o barulho do formigueiro de pessoas se cruzando e desviando em passos ligeiros.

 

Debaixo daqueles pés, o asfalto, e debaixo do asfalto, o bloco maciço de automóveis colados uns nos outros por partículas de fuligem e monóxido de carbono.

 

Mais uma vez, a 23 de Maio se metamorfoseava em monstro. Um Leviatã desfigurado que crescera demais e agora já não cabia na redoma de vidro que o cercava. Lento e pesado, se arrastava para frente, a borracha rasgando o asfalto, seus corpos betuminosos em fricção, o petróleo em interminável coito com o petróleo. O mesmo petróleo que agora derretia no rosto de Karina. Transmutado em maquiagem, a crosta bege se desfigurava pelas suas bochechas, escorria pela sua testa, pelo seu pescoço, em direção ao até então imaculado colarinho branco.

 

Com sua mandíbula trincada, Karina sentia o peso da granada sobre suas costas. Cravou as unhas compridas e mal pintadas de vermelho na palma da mão esquerda até sentir a pele rasgar, no exato instante em que Leviatã desfechou o golpe fatal.

 

Karina levantou o olhar procurando por consolo e deu de cara com as entranhas do monstro. Debaixo dos pés, debaixo do asfalto, debaixo do viaduto, subindo pelas paredes, à margem da autoestrada: o amontoado acinzentado de seres desumanos, da mesma cor das paredes, da mesma cor do piche, da mesma cor da fuligem e do petróleo e da cidade inteira. O Leviatã se despiu em frente a ela, seu escroto à mostra. Como quem pressente a chegada do colapso, a granada se liquefez em merda e escorreu por entre os cabelos de Karina, pelas suas costas, pelos seus dedos.

 

Eram sete da manhã de segunda-feira e no banco de trás do taxi Karina chorava.

 

 

 

 

 

M18M: Por quais mares já navegou?

 

Luciana Brandão: nasci nesse porto alegre, seguro e tranquilo. um lago quase de brinquedo, com limites delineados por terras ao alcance da vista. logo vi que não me bastava. me lancei através dos oceanos, primeiro o atlântico e depois o índico. feito um rio de correnteza bruta, cruzei o mediterrâneo, o amazonas, o canal do panamá. busquei aventuras e grandes amores, encontrei inspiração em cada paralelepípedo e em alguns sorrisos. virei águas turvas, brinquei de ser cachoeira brava, bati contra os cascalhos e me quebrei. três vezes. um dia acordei e vi que não me bastava. olhei para o céu e desejei ser mar calmaria, de marés fortes porém constantes. desejei também ser barca. desejei ser barca para navegar nesse mar aberto e fluir para onde o vento acenasse. então escrevi.

 

 

 

  

 

 

 

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