Amaduressência

 

Assim como as ruas, caminho: vezes cheia, vezes vazia. Molho-me com o sal do mar de mim e algumas vezes com o choro da terra. Alugo-me, vendo-me com frequência para movimentar a economia de minha vida interior. Sou grande, conturbada, mas possuo momentos de paz e vielas desabitadas. Habito o mundo dentro do mundo que o mundo tem. Ecoo o eco de vidas passadas, canto cantigas antigas e sons de agora. Emudeço na madrugada... amanheço, por fim. Concreto-me. Desenho-me em cada alma passante.

 

Escrevo no corpo que é meu muro, picho um picho vermelho nos lábios, enlaço os dedos com anéis que por ventura caem das mãos. Embriago-me com fumaça, cachaça e dizeres... Promessas do ano que virá, promessas de uma noite que se deu e acabou no afago de um abraço morto. Noto-me velha, porém não idosa.

 

Envelheço. Envelhecer é um processo de criação. Torno-me, primeiramente, poeta. Passo a construir mundos sem fundos, pessoas que não são e assim só são quando as chamo. Ficar gagá é dar-se o direito de lembrar esquecendo e relembrar criando. Quem envelhece pega pra si o remo da vida.

 

Há tantas Pasárgadas em meu caminhar. Cada dia tem em mim um mundo e não é porque ao dormir os esqueço que eles deixam de ser, permanecem. Moram nos sonhos onde posso voar. Quando acordo, vou à janela. Não mais tenho asas, só vontade de batê-las além do céu. Não se escolhe envelhecer, a velhice se dá. Muitas vezes se faz em corpo firme, outras vezes se desenha em rugas e anos que foram pra dar margem pro que a por vir. Envelhecer é banhar-se de finitude, é vestir-se do presente. O amanhã, ah... o amanhã é amanhã, não hoje. A velhice é a criança que volta após anos perdida.

 

 

 

 

 

 

 

M18M: Por quais mares já navegou?

 

Camila Barbosa: Dos mares que já naveguei, me volto ao que era antes de ser mar. Vejo rios rompendo, loucos, criando margens que oprimem. Oprimidas águas correm rumo ao sem limite. Salgam-se em lágrimas, tornam-se pacíficas. Depois de caminhar chega espaço em que só há marola. Lá é possível boiar e olhar o céu. Cada respiro vem no ritmo de ondas sem cabelos. Dos mares que já naveguei, aquele que sempre viajo está no continente em que me habito. Há mar nos cabelos, olhos, boca, mãos, pernas, braços...

 

 

 

  

 

 

 

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