Cara suja

 

Parada no trânsito no centro da cidade naquele fim de tarde de frio e garoa, a mulher estava distraída. O rádio ligado, canção velha e suave, o pensamento no jantar, no marido, nos filhos e nas tarefas do dia seguinte.

 

Não percebeu os dois meninos de cara suja se aproximarem da janela do carro. Através do pequeno espaço entreaberto, um deles pediu “um trocado, tia, por favor, pra mim comprar uma comida”.

 

Interrompida de repente em sua simples distração, a mulher se assustou. O menino captou o seu olhar no mesmo instante. O olhar assustado da mulher lhe ativou algum mecanismo e ele gritou através do vidro entreaberto, subitamente feroz: “passa a grana, vagabunda!”

 

Pela fresta que os separava, num reflexo a mulher passou o troco do almoço que ficara no bolso do casaco e, no mesmo segundo, a fileira de carros finalmente avançou.

 

Os meninos saíram depressa, satisfeitos não tanto pelo dinheiro mirrado, e sim pelo prazer que lhes dava se fazerem temer e notar. A mulher, ao captar a satisfação triunfante no olhar dos meninos naquele breve espaço de tempo, voltou para casa se sentindo verdadeiramente miserável.

 

 

 

 

 

 

 

M18M: Por quais mares já navegou?

 

Viviam Makia: Peixe de oceano olho sem pálpebra | flutuar | mergulhar | Em constante navegação.

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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