Infância

 

 

Ela tem 12 anos, sente que carrega o mundo nas costas e nada nas mãos. O que poderia querer uma menina de 12 anos além de brincar e descobrir coisas novas? Acordou às 5:30 da manhã, precisava esquentar o leite para os irmãos mais novos, a mãe sairia em 15 minutos. Nenhum beijo na testa, só um “cuida dos seus irmãos direitinho e não fica à toa na rua. Cuidado com os homi”. Sai com os três meninos para a escola, a irmã mais nova passava a manhã com a vizinha, enquanto a vaga na creche não saia. Na escola se sentia presa, grades, carteiras enfileiradas, carcereiros que não a deixavam em paz, professores que gritavam e mandavam copiar, os vinte minutos do “banho de sol” e a comida insossa. Pensava se aquilo não seria, afinal, a preparação do futuro da maioria dos que estavam ali? Escola-prisão. Mas não tinha prisão-escola, ela bem sabia, o marido da vizinha havia sido morto em rebelião, um primo estava atrás das grades esperando julgamento, a tia viajava todo final de semana, pacotes de cigarro e doce de abóbora na bolsa. Da prisão não sai humano. 

 

Toca a sirene e a horda foge da escola, correm sem olhar para atrás, em direção à liberdade, à rua, à brincadeira, às pipas e bola de futebol. Ela leva os irmãos para casa, esquenta o almoço que a mãe deixou preparado, arroz, feijão e linguiça frita. Busca a irmãzinha na vizinha, “muito obrigada e até amanhã”. Na rua está calor, mas o vento ameniza. Volta para casa, os irmãos saíram para brincar, jogar bola e sonhar em ser o Neymar. Ela deixa a irmã no berço e vai brincar de ser adulta. Lava a louça, varre a casa, tira o pó dos móveis, a mãe gostava da casa limpa, e ela não gostava de broncas. Chama os irmãos para fazer as lições de casa, troca a irmãzinha, “cagona”, choro e balanço, cansaço e sua própria lição a fazer. Sabia que viria bronca da professora, mas que se dane, não adiantava nada, matemática é uma merda e ela não entende, ia passar de qualquer jeito, aquela professora estava cansada também e não aguentava mais olhar para a cara dos alunos. A mãe chega às 19 horas, depois de pegar ônibus e trem, a patroa mora longe, a menina só não sabe onde. Quando a mãe chegar vai esquentar a comida, fritar a linguiça, perguntar como foi o dia, e ouvir a mesma resposta de sempre. 

 

 

 

 

 

M18M: Por quais mares já navegou? 

 

Beatriz R SilvérioSou historiadora e arte–educadora, e me permito vagar pelas águas da ficção

nos períodos de vazante. 

 

 

 

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